- O que? Dormir?
Eu havia passado a tarde toda na montanha cidade dos mortos, e nem perceberá que já havia escurecido.
- É. Dormir. Aqui o tempo, para as pessoas que estão aqui, parece passar mais rápido. Mas não passa. – disse o morto, que não sabe o próprio nome.
- Ahn... – “e já que eu não sou um morto, eu durmo onde?”, pensei.
- Como você não é um morto, não pode dormir em caixões, mesmo por que, não tem um para você. Então você irá dormir, no mesmo lugar em que veio para cá. – respondeu ele como se tivesse lido meu pensamento.
- Na cabaninha pequena, que quase nem cabe eu lá?
- Isso. Ou então, se você quiser, durma aqui fora no frio!
- Não. Prefiro a cabana.
- Perfeito.
Sorri.
Então, sem muitas escolhas espertas, fui para a cabana. Mas á noite na montanha, não fazia muito vento. Era só muito frio. Parecia que o vento que se fora, dera espaço para o frio.
Quando cheguei á cabana, girei a maçaneta da porta e uma surpresa: o caixão que estava ali quando eu fora para aquele lugar sinistro, não estava mais lá. Era melhor assim. Havia mais espaço. Um centímetro a mais, eu acho, para cada lado da cabaninha. Deitei-me desconfortavelmente lá, e sem saber como, adormeci.
De manhã, o sol entrava pela pequena janela da cabana direta ao meu rosto, o que era uma justa causa para me levantar. Senti falta da minha mãe, da escola e dos patetas meus amigos de lá. Levantei e me espreguicei. Queria perguntar ainda muita coisa ao homem estranho que conheci ontem. Não havia levado nada para aquela montanha e estava já morrendo de fome. Aproveitei, e resolvi também perguntar como iria comer, já que – eu acho – mortos não comiam. Abri a porta e dei de cara com a montanha gelada. Resolvi enfrentar, com o meu fiel companheiro: o bastão. Ontem, depois que havia usado ele, e o levado para ouvir a historia junto comigo, trouxe aquilo de volta para a cabana, por que sabia que ia precisar usá-lo novamente mais cedo ou mais tarde, em outros dias.
Peguei o bastão de ferro. Aquele bastão podia até matar uma pessoa, caso precisasse. Mas, - eu acho – não iria ousar fazer isto ali.
Saí, sem muito sucesso, para o frio congelante. Devia também perguntar ao homem, se tinha algum casaco também para mim.
Quando, novamente, cheguei ao pico da montanha, o morto estava na mesma posição de ontem na cadeirinha, já muito acordado. Desci até lá pensando nas perguntas que iria fazer para ele. Bom, ás vezes tudo parecia explicado, mas de repente batia umas perguntas necessárias, mais muito simples, que queria perguntar. Igual: “Como vou ajudar vocês?”, e assim por diante. Decidi só perguntar isso e se tinha algum casaco de frio ali também para mim, e comida.
- Oi.
- Oi. – respondeu o morto meu amigo.
- E...? – disse.
- Sua missão irá começar hoje mesmo. – disse ele com uma segurança, que eu fosse capaz de tudo.
- Hoje?
- Sim.
- Mas o que eu faço para começar?
- Ahn... invente uma desculpa para sua mãe, que coloque você em umas “férias” de uns cinqüenta anos. Aqui, em sua missão, o tempo irá passar mais rápido do que imagina.
- Legal. Pode me dar uma dica da desculpa?
- Não. Essa é a primeira parte de sua missão, e terá que fazê-la sozinha. Só na volta, depois que você tiver contado tudo para sua mãe, irá escolher dois amigos para te ajudarem. Eles terão que acreditar na historia inteira por que se não... não adianta trazê-los.
- Ah. Muito Obrigado. Você não sabe mesmo o quanto esta me fazendo um favor! Não vou mesmo conseguir inventar uma desculpa tão... tão... tão... desse tipo. Isso é para pessoas mais...
- Não interessa. – ele nem me deixou terminar a frase.
- ...espertas.
- Você é esperto o bastante.
- Você não me conhece.
- Está bem. Seja como for. Mas você terá de inventar uma desculpa convincente.
- Humpf – disse eu.
- Vá!
- Ahn...?
- Vá para sua casa mentir para sua mãe!
- Como eu vou?
- Se não me engano o caixão está na cabaninha. Vai lá ver.
- E de lá eu entro...
- ...você entra e tudo vai ocorrer como a hora que você chegou até aqui. – ele continuou.
- Sim. Então... adeus!
- Adeus.
Virei-me, e segui montanha acima.
Entrei no pequeno caixão, que como o morto dissera, estava novamente lá. Pensei que se eu quisesse, será que eu poderia nunca mais voltar ali? Acho que não. E também não queria. Não ia deixar de salvar aquele pequeno cemitério. Mas até que seria legal ninguém nunca mais morrer. Ia ser ótimo. Mas isso é contra as regras da vida! A gente vive apenas uma vez. Mais nunca.
Dentro do caixão, a voz não veio, mas aquele mesmo frio veio. E havia algo de diferente acontecendo. O frio foi diminuindo cada vez mais, até eu não agüentar mais de tanto calor no caixão. Senti de novo a sensação de já-pode-sair-da-cabana. Então, como na outra vez, se eu quisesse ficaria ali o resto da vida. Sai de lá.
Quando sai da cabana estava de frente á minha casa, com as luzes todas apagadas, e nenhum sinal de alguém lá dentro. Foi quando dois vultos passaram por entre o jardim, parecendo dois garotos de nove anos brincando no quintal de casa, esperando a mãe chamá-los para jantar. Aqueles eram dois garotos mortos, que iam ressuscitar dali algumas semanas. Imaginei quanto tempo demoraria a fazer aquela missão, e como eu iria realizá-la. Não sabia. Simplesmente não sabia. Olhei para trás para ver se a cabana estava ainda lá por que estavam passando na rua da minha casa um casal de namorados, e com certeza iriam estranhar. Mas nenhum sinal de cabana. Como agora eu voltaria para o mundo dos mortos? Resolvi entrar na minha casa e pensar nisso depois. Peguei a chave reserva que eu sempre carregava no bolso de trás e coloquei-a na fechadura da porta.
Novamente dei duas giradas na fechadura e nada. Continuei. Foi quando cheguei a cinco rodadas e a porta se abriu. Não me impressionei por que geralmente estava acostumado com coisas estranhas acontecendo na minha vida.
Entrei, mas como iria contar alguma coisa á minha mãe se ela não estava em casa?
Resolvi que ia passar a noite lá, e contar á ela mais tarde, quando ela chegar.


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