Meu dia começou normal. Ou tão normal quanto podia ser para mim. Mas não havia nada a levar que não seria normal.
TRIIIIIIIM.
A droga do relógio me acordou tão bruscamente que era capaz de quebrá-lo em trezentos pedaços e jogá-lo no lixo do banheiro. É. Meu dia acabará de começar. Mais uma vez. Tomei banho, eu acho em 15 minutos, – o que não seria bom, por causa da falta de água – pensando mais uma vez em que esperar do dia que acabará de chegar. Era fácil, se não houvesse imprevisto algum; depois do banho, eu vestia-me, tomava meu leite matinal, – legal, sempre quis falar isso – logo depois ia pra escola, encontrava todos os idiotas de sempre, saía da escola, voltava para casa, almoçava se estivesse com fome, lia um pouco, dormiria só também se estivesse com sono, via TV, mexia um pouco no computador e resto do dia, até umas sete da noite, revezava entre esses dois. Depois das sete tomava um banho, e depois revezava entre os dois de novo até umas dez da noite até minha mãe chegar. Ela trabalhava de faxineira das nove da manhã até nove e meia da noite na casa da Renata. Renata eu não conhecia muito bem, mas, eu acho que era a melhor amiga da minha mãe. Se você está interessado meu nome é Phrederick minha mãe se chama Daisy, e eu não tenho pai. Morreu em um acidente de ônibus quando eu ainda tinha oito anos. Quantos anos eu tenho? Doze. Bom, já passará da hora de sair do banho não é? Economizar água. Minha mãe sempre me falava isso, até que acostumei e passei a aderir à lei.
Vesti-me, tomei o leite, e fui á caminho da escola.
- Tchau, filho, vai com Deus. – disse minha mãe quando estava girando a maçaneta da porta para sair.
- Tchau, mãe.
Enquanto estava indo, passei por uma cabana, - ou casa, sabe lá – abandonada. Deu-me um arrepio quando passei na frente dela, e a impressão de que vi um vulto saindo de trás da casa e passando pra o canteiro de flores. Estava quase acostumado com o fato de todo dia passar pelo mesmo caminho, e sempre acontecer isso, ou coisa parecida, ao passar pela casa. Mas hoje senti alguma coisa diferente ao passar por ela. Não sei o que era, mas parecia um tipo novo de arrepio, um arrepio mais medroso, sabe lá o que.
Cheguei à escola. Eu tinha alguns amigos lá, mas nem conversava com eles direito. Falei:
- Oi!
- Oi, Phrederick – disse a menina que gostava de mim, pena que era feia demais. – Fez a tarefa de Geografia?
- Ahn... não. Pode me emprestar seu caderno pra eu copiar?
- Claro. Quando quiser – ela nem se importava com o fato de copiarem dela, isso que era o melhor nela.
Copiei pensando no vulto que havia visto na casa. Bem, na verdade, eu não sabia o que era. Mas parecia ser um vulto mesmo. E eram daqueles que davam muito medo.
Copiei tudo, e consegui entregar o caderno a Sandy a tempo, antes do sinal de entrar na sala fosse tocado.
Nada demais aconteceu depois disso.
Outro “TRIIIIIIM” foi tocado para a hora do recreio. Odiava essa parte, pois era onde não tinha nada a fazer durante meia hora. Ótimo!
Fui até a biblioteca pegar outro livro, porque já terminará de ler “O ladrão de raios”. Peguei a continuação dele: “O mar de monstros”.
Cheguei à biblioteca, mas não havia absolutamente ninguém lá dentro. Só eu. Estranho. Sempre que ia á biblioteca, havia – logicamente – a bibliotecária, lá, sempre disposta a atender os alunos. Mas hoje não havia ninguém. Resolvi olhar por entre as prateleiras, para ver se não estava alguém escondido por elas. Olhei a primeira, e não encontrei ninguém. Vi um livro chamado: “A feiticeira” e continuei procurando. Vi outro: “O último olimpiano”. Vi mais, e mais livros por entre as prateleiras cheias, mas não havia ninguém lá dentro. Finalmente cheguei à última prateleira, - porque aquela sala era simplesmente enorme e tinha muitos livros, - e em vez de encontrar alguém, encontrei um vulto. Gritei:
- Ahhhhhhhhhhh.
Ninguém ainda assim entrou lá, mas de repente o vulto passou por mim, e tipo me desafiou, mexendo os dedos calmamente na minha direção, fazendo com que qualquer um se desesperasse, fazendo gesto de “vem cá”. Fui para cima dele e ele desapareceu. Mas que legal. Acabará de ver alguma coisa estranha, um vulto eu acho, e não tinha ninguém na biblioteca. Perfeito. Saí da biblioteca, e quando fechei a porta, a alegre e cabeça oca da bibliotecária estava voltando não sei de onde. Ela me disse:
- Oi! Tudo bem? Veio buscar algum livro? – ela disse calmamente calma nem olhando para mim, e sim para o resto das pessoas que passavam por nós curtindo alegremente o recreio.
Sinceramente, me deu vontade de encher ela de pancada. O que eu faria na biblioteca além de pegar algum livro? Patética. Respondi:
- Oi! – queria completar o “Oi!” com “Oi idiota!”, mas seria muita falta de educação da minha parte com aquela adorável velhinha. Eu acho que ela tinha mais de 65 anos por que aparentava isso, e era um pouco velha demais se não tivesse essa idade. – Tudo bem e você? Vim, mas não tinha ninguém na biblioteca para atender-me e saí de lá. – completei.
- Ah, que isso? Vamos, entre, vou procurar o livro que você quer ler.
- Sim, senhora.
Ela sabia o resumo de todos os livros que havia naquela biblioteca, e não seria nada mal pegar um livro que tacasse uma bela indireta nela. Ela me fez passar muito medo na biblioteca e merecia o troco.
Quando entramos me disse:
- Muito bem. Qual é o livro?
- Ahn... “A bibliotecária desaparecida”. Você tem esse?
Ela me olhou com a cara mais feia que eu já tinha visto nela.
- Ahn... sim, claro, temos.
Ela se levantou e foi direto na ultima prateleira – a que eu tinha visto o vulto, - e infelizmente ele não apareceu para ela. Seria bom ela levar um susto igual o meu.
Ela voltou da prateleira, e trouxe o livro. Eu o peguei, e ela marcou umas coisas no seu caderninho e falou que eu já poderia ir.
Cheguei lá fora e o sinal tocou. Perfeito. Odiava o recreio.
De novo, nada demais aconteceu.
TRIIIIIIIIM.
Todos saíram correndo pelos corredores da escola a fim de chegar em casa o mais rápido possível. Eram umas uma hora da tarde. Eu acho. Não saí correndo, por que não havia nada demais na minha casa me esperando, a não ser que algum imprevisto acontecesse, como eu havia dito antes.
Passei pelo portão de entrada/saída da escola. Fui lembrando em que eu ia fazer quando chegasse em casa. Ah. Já sei. Eu iria almoçar. Claro. Depois se estivesse com vontade, ia ler sobre “A bibliotecária desaparecida”. Amei o título quando fui pegar o livro, que era uma ótima indireta para aquela bibliotecariazinha. E ela também. Acho que amou o título. Aprendeu a dar valor ao trabalho e não sair mais daquela sala no horário em que a maioria das pessoas vai pegar um livro. Mas hoje, estava sendo um dia muito estranho. Ninguém além de mim foi pegar livros na hora do recreio. E a Cristini, a bibliotecária, nunca também saíra daquela sala hora alguma. Muito menos a hora do recreio. Havia muita coisa estranha acontecendo, e eu ia descobrir o que estava acontecendo.
Estava a mais ou menos dois quilômetros da casa abandonada.
Estava agora em frente à casa abandonada.
Mas, dessa vez, nenhum vulto apareceu – ou o que quer que fosse.
Eu também não senti arrepio algum.
Estava tudo muito calmo.
Menos mal. Eu sempre odiava passar por ali, mas minha casa era no mesmo bairro, então não havia jeito.
Legal, nunca mais iria aparecer um vulto de novo quando eu passasse por ali. Pelo menos era isso que eu esperava.
Passei pela casa, e cheguei á minha.
Almocei, mas havia algo errado. Você já teve a sensação de que alguém o está perseguindo, sem te perseguir? Era isso. Eu sentia a sensação, olhava para trás e não havia ninguém. Absolutamente ninguém. Mas não era só isso. Quando eu sentia que alguém estava perseguindo-me, parecia que a pessoa perseguidora era algum conhecido. Não me pergunte, pois não sei explicar muito bem.
Bom, tudo bem até ai. Era três da tarde, e minha tia havia chegado do trabalho. Minha tia era Marie, e trabalhava numa escola de primeira a quarta série, fazendo a comida para os alunos.
Fui até a casa dela para ver se essa perseguição passava.
- Oi tia!
- Oi! Como foi a escola?
- Ah, bem.
- Que bom.
- É. O que esta fazendo?
- Eu estou fazendo o café da tarde. Vai ficar para comer?
- Se não for incomodo.
- Acha? Pode ficar o quanto quiser.
- Obrigado!
Ela sorriu.
Minha tia era uma pessoa muito legal e gentil, e se preocupava até demais com os outros. Morava a duas quadras da minha casa. Isso era o melhor. A casa dela era pertinho.
Sem muita demora o café da tarde ficou pronto e ela me chamou na sala para ir comer.
- Vai ficar comigo até sua mãe chegar? – Ela perguntou.
- Ah, então, não sei... – disse indeciso. – Vou ver ainda.
- Tudo bem. Mas se você quiser ficar aqui pode ficar á vontade.
- Eu sei tia. Obrigado.
Peguei uma torrada e mordi um pedaço. Estava uma delícia. Minha tia fazia muitas comidas, por isso elas eram tão boas.
Acabei de comer, e decidi que ia enfrentar o perigo.
- Ahn... tchau tia – acenei.
- Você vai ir embora? – ela fez uma careta.
- Sim. Tenho que fazer um trabalho – menti.
- Ah, sim. Então esta bem. Tchau
- Tchau – repeti.
Cheguei em casa, e fui abrir a porta para entrar.
Coloquei a chave na fechadura, e dei uma, duas, três, quatro voltas na chave. Ué? Geralmente quando abrimos ou fechamos uma porta só podemos dar duas voltas na chave. Que estranho. Isso não era possível. Não em um mundo normal. Com uma pessoa normal. Pelo menos eu achava que eu era. Continuei rodando a chave. Cinco, seis, sete, oito, nove...
Cheguei á contagem de trinta e uma voltas sem nenhum sucesso com a porta. Então, resolvi recuar, e voltar para a casa da minha tia.


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